segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Mangueira - Os tambores da mangueira na terra da encantaria



Mangueira - Samba Enredo 1996 Os tambores da Mangueira na terra da encantaria

No revoar da inspiração
O poeta conseguiu
Contar em verso e prosa
O amor pela cultura
Lendas e mistérios
Do nordeste do brasil
Deite numa rede de algodão
E adormeça nas crenças do maranhão
No fundo do mar
Tem um castelo que é do rei sebastião
Tem mandinga tem segredo
Meu amor eu tenho medo
De brincar com assombração

Ana se fez donana
Na carruagem tem uma mula-sem-cabeça
Por incrível que pareça
Uma serpente circundando o ribeirão
A manguda vai chegar
Bumba-meu-boi e cazumbás
É festa de são joão

Agô iná iná agô !
Oh! doce mãe sereia
No seu lampejo que ilumine todos nós
Lá na praia dos lençois
É noite de lua cheia

Os tambores da mangueira
Na terra da encantaria
Encantaram o touro negro
Que num toque de magia

Se vestiu de verde e rosa
Embarcou na poesia.

Beija Flor -São Luís - O poema encantado do Maranhão



Samba Enredo da Beija Flor que homenageia os 400 anos de São Luís do Maranhão

em magia em cada palmeira que brota em seu chão
O homem nativo da terra
Resiste em bravura
A dor da invasão
Do mar vêm três coroas
Irmão seu olhar mareja
No balanço da maré
A maldade não tem fé sangrando os mares
Mensageiro da dor
Liberdade roubou dos meus lugares
Rompendo grilhões, em busca da paz
Na força dos meus ancestrais

Na Casa Nagô a luz de Xangô axé
Mina Jêje em ritual de fé
Chegou de Daomé, chegou de Abeokutá
Toda magia do Vodun e do Orixá

Ê rainha o bumba-meu-boi vem de lá
Eu quero ver o Cazumbá, sem a serpente acordar
Hoje a minha lágrima transborda todo mar
Fonte que a saudade não secou
Ó Ana assombração na carruagem
Os casarões são a imagem
Da história que o tempo guardou
No rádio o reggae do bom
Marrom é o tom da canção
Na terra da encantaria a arte do gênio João

Meu São Luís do Maranhão
Poema Encantado de Amor
Onde canta o sabiá
Hoje canta a Beija-Flor.

A poesia segundo Sousândrade



O Guesa / Canto terceiro

As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia p'ra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já s'inclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.


Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos d'áureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.


"Havendo nascido na fazenda paterna, situada no município de Alcântara, em 1832 - até havia poucos anos os restos do casarão da família podiam ser vistos - e morrendo em 1902, em São Luís, a vida madura do poeta se desenrolou na segunda metade do século 19. Beneficiário da riqueza rural paterna, Sousândrade percorreu, entre 1853-56, vários países europeus. Acredita-se que tenha se diplomado em letras pela Sorbonne e, depois, ainda feito o curso de engenharia de minas. Tampouco sabe-se ao certo se teria conhecido as Fleurs du mal ou a poesia coloquial-irônica de Laforgue e Corbière, muito embora seu poema "Mademoiselle" (em Eólias, 1874) aproxime-se da dicção destes, em claro afastamento do legado romântico nacional.  
Uma das poucas coisas certas que dele sabemos se refere a seu conhecimento do grego - de que o governo do Maranhão o fez, no fim da vida, professor no Liceu Maranhense, como maneira de lhe assegurar um ganha-pão. A partir daí pode-se crer que sua diferença poemática estivesse relacionada a leituras em uma tradição que, com exceção de Odorico Mendes, era desconhecida de seus pares".  Por Luiz Costa Lima